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Opinião: “As vozes que o Rei da Espanha não ouviu”

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Série da Record TV foi premiada em Madri, Espanha

Série da Record TV foi premiada em Madri, Espanha

Arquivo Pessoal

Não houve espaço para discurso. Sua Majestade, o Rei Felipe VI da Espanha, não tinha tempo a perder. O máximo que a maioria dos presentes escutou de nós foi um agradecimento rápido de toda a equipe em um vídeo gravado de, precisamente, 25 segundos.

Mas a nossa conquista do Prêmio Internacional de Jornalismo Rei de Espanha tinha em si uma conjunção de vozes em busca de atenção. Ao subirmos naquele palco para receber o troféu das mãos do Rei, o colega Daniel Motta e eu trazíamos conosco muito mais do que um ouvinte mais distraído conseguiria perceber.

Primeiro, a voz suprimida e dolorida de uma vítima. O documentário vencedor na categoria Televisão, Os Piratas da Amazônia, trouxe um “furo” internacional. Mostrou ao mundo que uma família norte-americana, assaltada em uma balsa por uma gangue de piratas em outubro de 2017, havia escondido um mal ainda mais grave: Emily Harteau, esposa e mãe de duas meninas, revelou ter sido vítima de uma violência sexual por um dos piratas. Graças à reportagem, o agressor foi identificado e preso.

Jornalistas da Record TV são premiados em Madri

Jornalistas da Record TV são premiados em Madri
Arquivo Pessoal

No entanto, o caso dos americanos, por mais revoltante que seja, foi apenas um em meio a um aglomerado de vozes que clamam todos os dias por mais segurança naquela região. O documentário também mostrou uma série de vítimas locais: pessoas comuns, anônimas, que perderam pais, maridos, parentes e amigos diante da barbaridade espalhada pelos criminosos nos rios amazônicos.

A falta de estrutura para um policiamento adequado — também denunciada no documentario — é fator decisivo para que situações como a dos americanos e de centenas de ribeirinhos continuem acontecendo no Pará.


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As vozes que o Rei não ouviu traziam, ainda, o orgulho de uma equipe dedicada. Aqui, na Espanha, o Câmera Record foi representado por um integrante de cada ponta do bom jornalismo de TV: Daniel Motta, responsável pela investigação e reportagem em campo; eu, roteirista e editor do documentário; Caio Laronga, um dos editores de pós-produção; e Rafael Ramos, um dos sonoplastas que trabalharam na finalização da reportagem.

Somos, ao todo, mais de 20. Profissionais comprometidos, dedicados, obcecados por levar ao público boas histórias com profundidade e, acima de tudo, verdade. Também fazem parte da equipe: nosso editor-executivo e coordenador Gustavo Costa, os repórteres Domingos Meirelles e Anna Paula Mello, os editores de pós Lucas Augusto, Victor Haar e Carlos Francisco, os responsáveis pelas artes Pablo Soares e Demètrius Argyriou, os sonoplastas Renan Larangeira e Fabio Martins e o chefe de redação Rafael Gomide, entre outros valorosos profissionais.

Mas Sua Majestade, o Rei, também deixou de ouvir o agradecimento emocionado de um homem que começou nesta profissão ainda menino. Há exatos 16 anos, eu iniciava minha trajetória numa emissora de TV em minha cidade natal, Belo Horizonte (MG). E graças à determinação, ao inconformismo e ao empenho — nem sempre reconhecidos — me mantive nessa difícil estrada compartilhada com muitos bravos colegas até hoje.

Hoje. O dia em que contive as lágrimas ao ver meus pais, emocionados, ao lado de minha noiva na plateia. Com a convicção de que eles não se orgulham do jornalista que me tornei. Mas, sim, por eu levar adiante os valores que eles me ensinaram desde criança.

Por tudo isso, no fim das contas, tenho certeza de que Sua Majestade escutou, sim, as duas palavras mais importantes. Elas foram ditas bem baixinho, de forma muito tímida. Mas resumem bem o que sinto ao pensar em tudo o que envolve este momento:

“Muito obrigado.”

*Marcelo Magalhães é editor do Núcleo de Reportagens Especiais da Record TV e vencedor dos Prêmios Rei de Espanha em 2016 e 2019 (Agência EFE), do Prêmio Esso, do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, do Prêmio Petrobras, do Prêmio Anamatra de Direitos Humanos, do Prêmio Ministério Público do Trabalho, do Prêmio República e do Prêmio Policiais Federais de Jornalismo. Também trabalhou como repórter, editor e editor-chefe na RedeTV! e na TV Globo. Foi bolsista Chevening (governo do Reino Unido) e é mestre em Jornalismo Internacional pela University of Westminster, em Londres. Formado em Jornalismo e com pós-graduação em Gestão Estratégica da Comunicação, ambos pela PUC-MG.

Source: R7


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