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 ‘Sofri por minha origem’, diz brasileiro que viveu o Holocausto

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Andor Stern foi separado da mãe, Julia Schegerin

Andor Stern foi separado da mãe, Julia Schegerin
Reprodução/Facebook/Instituto Julia Schegerin

Andor Stern ainda tem um rosto que se assemelha ao de um menino dócil. Por trás dos grandes óculos, os olhos claros, tímidos, parecem estar atentos a tudo ao redor, em busca de uma surpresa ou susto. Essa sina da ameaça é sempre uma presença, mesmo em uma vida de superação, para ele, aos 90 anos, único brasileiro sobrevivente do Holocausto nazista.

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O que o salvou, do ponto de vista emocional, foi o Brasil. Stern nasceu na cidade de São Paulo, em 17 de junho de 1928. E sofreu nos campos de concentração e extermínio nazista, para onde foi após ser levado da Hungria, onde morava naqueles anos 40.

Depois do pesadelo nos campos de concentração, voltou sozinho para o Brasil, em 1948, tendo sobrevivido à fome, ao antissemitismo brutal, às doenças e às torturas dos nazistas, à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que o marcaram com o número 83892. Demorou para ele voltar a ser Andor Stern.

Ele saíra do Brasil aos três anos, porque o pai, médico húngaro da mineradora Anglo Gold, foi transferido para a India, poucos anos antes de retornarem à Hungria. Stern era filho único e nunca mais viu a mãe, Julia Schegerin, no momento em que ambos foram encaminhados para Auschwitz, em 1944.

Origem judaica

Na semana passada, de sua casa, por telefone, Stern explicou para mim como conseguiu construir uma carreira profissional de sucesso, após o drama.

Ele ainda trabalha como consultor do grupo Unigel, na área de produção de plásticos. Antes de falar, porém, não escondeu sua desconfiança. E não demonstrou ter gostado muito da pergunta que fiz, sobre como teve forças para seguir em uma carreira após ter sofrido tanto.

“Essa história que fiz aqui, depois que fiquei no campo de concentração não tem a ver com o passado anterior.”

Depois, ele prosseguiu, falando um português claro, com menos sotaque do que costumeiramente têm os sobreviventes dos campos. Mas ainda com sotaque.

“Eu já tinha uma profissão e concluí uma bolsa da IBM. Fui aluno da IBM, depois fui engenheiro de sistemas e fui pioneiro na introdução do sistema de processamento de dados no Brasil. Depois vendi uma empresa que tinha aberto e em 1992 passei a trabalhar na Unigel.”

Nem o fato dele ficar sabendo, no meio da entrevista, que eu era judeu diminuiu seu receio em falar sobre esse tema por telefone. É verdade que o meio de comunicação não ajudava uma maior aproximação no momento. Mas também é inegável que, independentemente da situação, Stern não se sentiu confortável com minha pergunta sobre judaísmo.

“Depois que sobrevivi à guerra, não estava muito contente com o fato de ser judeu. Sofri muito por causa da minha origem. Na Hungria cresci sendo chamado de ‘judeuzinho’, perseguido. Apanhava. Quando voltei ao Brasil e soube que o Bom Retiro era o bairro judaico, não fui para lá, queria esquecer. Não convivia com judeus aqui.”

A própria identidade

A epifania que fez Stern novamente se ver como judeu ocorreu em 1960, quando o nazista Adolf Eichmann foi capturado na Argentina e condenado em Israel, na única vez que o país aplicou a pena de morte.

“Quando prenderam o Eichmann explodiu algo em mim. Eu disse para mim mesmo: ‘Você nunca vai deixar de ser judeu’. Passei então a contribuir e ajudar no combate ao antissemitismo, junto à Organização Simon Wiesenthal. Entendi que também tinha essa missão.”

Nem por isso Stern frequenta a comunidade judaica. Mesmo com o destino tendo batido à sua porta, quando suas duas filhas (dos cinco filhos que tem) se casaram com judeus.

“Casei-me com uma brasileira que não era de religião judaica, com quem estou há 65 anos. Mas fiquei os primeiros cinco ou seis anos (antes da prisão de Eichmann) sem revelar minha origem e meu passado. Minhas filhas, curiosamente, se casaram com judeus”.


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Ele conta que, mesmo não frequentando a sinagoga e não participando das festividades, guarda algo dentro dele, que o leva para onde viveu com seus antepassados.

“Quando tenho oportunidade, volto para a Europa, para a Hungria, tenho parentes lá. E visito o túmulo dos meus parentes falecidos, que ficam ao lado de uma sinagoga local.”

A sensação de desconforto com o tema, no entanto, se mantém. Em um embate com as revelações que não consegue conter. E, para tentar me colocar ao seu lado, explico que alguns parentes dos meus avós também morreram na guerra ou tiveram dificuldades para fugir da Europa. Stern logo emenda, em tom de desabafo, um tanto inconformado:

“Quando ouço isso que você me diz, penso: como nossa história é trágica…Um dia perguntaram ao Winston Churchill (ex-primeiro-ministro do Reino Unido, na Segunda Guerra) o que deve ser feito para solucionar o problema dos judeus. E ele foi claro: ‘Deixar de persegui-los'”.

Brasil do samba

Uma das boas memórias da infância de Stern é que, em Budapeste, ele sempre foi chamado de “meu garoto brasileiro” pelo seu avô, conforme conta a biografia “Uma Estrela na Escuridão – A Incrível História de Andor Stern, o Único Brasileiro Sobrevivente ao Ho­locausto”, escrita pelo historiador e professor Gabriel Davi Pie­rin.

Foi essa lembrança e o desejo de sair do inferno do campo, que o mantiveram vivo no momento em que pensava em se suicidar. Estava no campo de Waldlager (um dos muitos pelos quais passou), com seu amigo Luis Berger (sobrevivente que morreu no Brasil há cerca de 5 anos). O árduo trabalho tomava de 10 a 12 horas por dia.

Com o corpo tremendo de frio, teve um rompante e decidiu desistir de tudo, correndo em direção à cerca de arame farpado. Iria ser fuzilado ou preso.
Mas parou, lembrando de como era chamado pelo avô, e pensou no País como uma espécie de mãe gentil, que novamente iria acolhê-lo. “Ainda vou voltar para o Brasil,” murmurou para si. E sobreviveu com esse ideal.

Hoje, ele também se mostra incomodado com a pergunta: o senhor se considera mais brasileiro ou judeu?

“Sou um ser humano. Não tenho escolha. Sou judeu e sofri por isso, mas é a minha origem, não a rejeito. Mas sempre falo que as pessoas não devem ser vistas de acordo com a religião, nacionalidade ou raça, e sim pela sua condição humana. Somos todos iguais e merecemos o mesmo respeito. E é por isso que luto.”

Terminada a fala, a sensação de desconforto ficou ainda maior. Ele parece não querer falar mais. Preferia, possivelmente, que eu falasse do Brasil. Talvez de futebol. Ou de samba, ambos tão alegres e pulsantes. Por isso, diz:

“Olha, estou ocupado, com um compromisso, podemos nos falar mais tarde?”

Respondo:

“Claro, posso lhe telefonar umas 15h ou 16h, ok?”

“Não, eu prefiro ligar, qual o seu número?”

Passei-lhe. E ele realmente ligou, cinco minutos depois.

“Olha, estou com um compromisso, vou te ligar mais tarde possivelmente. Eu prefiro ligar, não precisa me ligar.”

E não telefonou mais. Pensei, então, naquela música de Jorge Aragão, um samba tão tocante que embala a alma e explica muito a paixão de Andor Stern pelo Brasil, pela doçura sensual que torna até mesmo a tristeza bela. Ele bem poderia ter me dito, no acúmulo de suas perdas e conquistas:

“Logo, logo, assim que puder, vou telefonar. Por enquanto tá doendo…”

Veja a história de sobrevivente do holocausto que nasceu em campo de concentração

Source: R7


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